Adolescentes são principal alvo da indústria de vapes, alerta OMS
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, dados mostram que jovens usam cigarro eletrônico muito mais que adultos e correm riscos cardiovasculares
A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que cerca de 15 milhões de adolescentes entre 13 e 15 anos já usam cigarro eletrônico em todo o mundo, e outros 40 milhões consomem produtos derivados do tabaco. O dado foi divulgado em referência ao Dia Nacional de Combate ao Fumo, marcado em 29 de agosto, e reforçado pela cardiologista Jaqueline Scholz, assessora científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), em artigo publicado na coluna Guenta, Coração, do site Veja Saúde.
Segundo a especialista, nos países que possuem dados disponíveis, adolescentes têm em média nove vezes mais chance de usar vape do que adultos. Para ela, essa disparidade não é acidental, mas resultado de um desenho de produto pensado para atrair o público jovem.
Por que os vapes atraem tanto os adolescentes
De acordo com o artigo, o cigarro eletrônico reúne uma combinação de elementos voltados à sedução do público mais jovem: sabores adocicados que disfarçam o gosto amargo da nicotina, embalagens coloridas, formato que remete a dispositivos eletrônicos comuns, forte presença em redes sociais e uso de nicotina sintética.
Scholz descreve essa estratégia como planejada para criar uma nova geração de consumidores dependentes por longos períodos. A OMS defende, como resposta, medidas como proibição de sabores que mascaram o gosto da nicotina, restrição à publicidade (sobretudo em ambiente digital), embalagens padronizadas, regras mais duras sobre o design dos aparelhos, ambientes livres de nicotina, aumento de impostos e mais acesso a tratamento para quem quer parar de usar.
Como o vape chega às mãos dos adolescentes
Um ponto destacado no artigo é a forma como a dependência se propaga entre os jovens. Segundo estudos citados pela cardiologista, cerca de 70% dos adolescentes conseguem seu primeiro vape por meio de um irmão, amigo ou colega, e não em pontos de venda.
Essa circulação informal, de mão em mão, é apontada como um dos principais caminhos de entrada no consumo. Por isso, a especialista defende que evitar compartilhar ou oferecer o dispositivo a quem ainda não usa é uma atitude concreta capaz de reduzir a exposição de novos adolescentes à nicotina.
Os efeitos da nicotina no coração e no cérebro
O artigo reforça que a ideia de que o cigarro eletrônico produz "apenas vapor" e seria inofensivo é equivocada. O vape também libera nicotina, substância associada a aumento da frequência cardíaca, elevação da pressão arterial, maior liberação de adrenalina e disfunção da parede dos vasos sanguíneos.
Esses mecanismos favorecem processos inflamatórios que aceleram a formação de placas de gordura nas artérias, o que eleva o risco de infarto, acidente vascular cerebral (AVC) e arritmias, segundo a cardiologista. Em adolescentes, cujo cérebro ainda está em formação, a nicotina também pode interferir em funções como atenção, memória, aprendizado e controle de impulsos, tornando a dependência mais precoce e mais intensa.
O que muda no Brasil
No Brasil, a comercialização, a importação e a propaganda de cigarros eletrônicos são proibidas pela Anvisa desde 2009, regra reafirmada em 2024 após revisão das evidências científicas disponíveis. O artigo cita o país como referência internacional nesse tipo de regulação preventiva.
Isso significa que, diferentemente de mercados que autorizaram a venda do produto e hoje endurecem as regras diante do aumento do consumo entre jovens (como Austrália, Canadá e Nova Zelândia, mencionados no texto como exemplos de regulamentação mais restritiva), o Brasil optou por impedir a entrada legal do vape antes de sua disseminação. Ainda assim, a proibição formal não elimina a circulação do produto por vias informais, como mostra o dado sobre repasse entre colegas e familiares.
O que se sabe e o que ainda falta esclarecer
Os números apresentados pela OMS descrevem um cenário global e não detalham a situação específica do Brasil quanto à prevalência de uso entre adolescentes brasileiros, informação que não constava no material analisado. Também não há, no conteúdo disponível, dados sobre a eficácia prática da proibição brasileira na redução do consumo entre menores de idade.
O que fica estabelecido é que a exposição à nicotina em fase de desenvolvimento cerebral carrega riscos documentados para o sistema cardiovascular e para funções cognitivas, e que a via mais comum de acesso ao vape entre adolescentes é o convívio social, não o comércio formal. Para famílias e escolas, isso reforça a importância de conversas preventivas e de atenção ao compartilhamento do dispositivo entre jovens, enquanto a discussão sobre regulação e fiscalização continua em pauta tanto no Brasil quanto em outros países.
Fontes consultadas
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